O que é Vocação

Introdução

No presente trabalho não pretendemos esgotar os estudos sobre vocação nem muito menos sintetizar o pensamento e o conhecimento dos grandes teólogos da vocação, apenas buscamos oferecer – e acredito que o objetivo foi alcançado – um pequeno conteúdo sobre o termo vocação e seu significado. Como todo ação humana, este pequeno trabalho, tem o seu objetivo que deseja alcançar: facilitar aos membros das EVP’s um breve conteúdo sobre o que é vocação. Para alcançar tal objetivo temos optado por dividir o conteúdo em breves subtemas, se assim podemos chamar, que facilitem ou ajudem no estudo pessoal e de conjunto, tais itens são: a origem e o sentido morfológico da palavra vocação; definição ou conceito de vocação; sentidos ou compreensões de vocação; tipos de vocação; etapas ou passos da vocação; e dimensões da vocação. O presente trabalho teve como apoio a Sagrada Escritura, livros que falam de vocação, e alguns escritos da espiritualidade vocacionista.

A origem e o sentido morfológico da palavra vocação

Como toda palavra, e a palavra vocação não é a acepção, tem seu sentido morfológico ou origem que nos ajuda a compreender seu uso e o seu significado. Neste pequeno trabalho trazemos dois vocábulos latinos, dos quais procede a palavra vocação, com a finalidade de termos uma melhor compressão: vocare e vocatio.

  • Vocare: na maioria dos dicionários e livros que falam sobre vocação encontramos que este termo latino significa ou pode ser compreendido, interpretado, traduzido como “chamado” ou “ato de chamar”[1].

  • Vocatio: este termo latino podemos dividir em duas partes que nos facilita uma melhor compreensão. Vox: que significa voz, som, chamado, grito forte; e atio: que significa ou pode ser traduzido como agir, ação, movimento. Disto podemos dizer que sempre existe: chamado e resposta, convite e obediência, ou seja, existe um diálogo livre entre duas pessoas: quem chama e quem é chamado – pessoa que realiza a ação (cf. PIKAZA, X. pp. 12,20 e 221).

 

[1] PIKAZA, X. Chamado pelo nome: estudo bíblico. São Paulo: Paulinas, 2015, p. 7 e 39.

Definição ou conceito de vocação

A partir do sentido morfológico podemos definir vocação como o chamado (convite) para realizar uma determinada ação. Aprofundando mais o termo podemos dizer que vocação é o chamado que Deus faz ao ser humano para executar uma missão na Igreja de Cristo, contribuindo desta forma para que todos e cada um em particular, alcance a União Divina com a Santíssima Trindade. Ou seja, vocação é, segundo Pe. Justino Russolillo, “um vivente e livre relacionamento de amor [do ser humano] com as suas Divinas Pessoas [da Santíssima Trindade], como palavra e dom de amor de uma pessoa à outra”[1]. Ou seja, da nossa resposta à chamada surge uma vida de intimidade com quem Chama; na verdade, esta vida de intimidade é o começo de um caminho que nos coloca no víeis da vontade de Deus e consequentemente na busca da santidade como modo de vida e não apenas como fim último do ser humano[2].

A vocação não se impõe, pelo contrário, é disposição e acolhida pela (da) pessoa chamada, pois, a vocação depende da nossa aceitação e de nossa correspondência ao chamado – graça (Cf. RUSSOLILLO. J. CXI, 953.), ou seja, gera responsabilidade e compromisso (na pessoa) de quem responde ao chamado. De forma sintética podemos definir vocação como a forma de viver o chamado, que é de origem divino, dirigido a cada ser humano: homem ou mulher; pela qual o divino vem a desvelar-se, ou seja, vocação é escutar a voz de Deus e responder-lhe em Cristo: isto é vocação para o ser humano (cf. PIKAZA, X. pp. 5, 48, 88 e 221).

Xavier Pikaza parte do pressuposto de que Cristo, o Verbo encarnado, é o verdadeiro vocacionado do Pai, o Amor por excelência. Identifica a vocação com a pessoa relacionando-a com a própria tarefa ou missão do ser humano que define a sua existência (Cf. PIKAZA, X. pp. 9, 213 e 214) e a existência de toda a criação[1], e afirma que não existem tipos de vocação, mas itinerários diferentes na busca e na descoberta de Deus – vivência do amor (Cf. PIKAZA, X. 2015, p. 196; PEREIRA, S. 2008, pp. 129-131). 

[1] RUSSOLILLO, J. Ascensione. Nápoles: Edizioni Vocazioniste, 2004. I,1. [Versão brasileira: Ascenção. Vitória da conquista: Edições Vocacionistas, 2014]

[2] CAPUTO, L. Al servizio delle Divine Vocazioni. Napoli: Edizioni Vocazioniste, 2011. p.86.

[4} PEREIRA, S. Amar: chamado divino, vocação humana. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 11.

Tipos de vocação

Se cada ser humano tem um itinerário diferente de viver a sua vocação, porém que conduzem ao mesmo fim. Pe. Justino divide as vocações em gerias: à vida, à fé e à santidade; e específicas: ao ministério ordenado, à vida consagrada e ao matrimônio. Segundo a Tradição e o Magistério da Igreja existem formas (vocações) diferentes de viver o chamado de Deus. Aqui apenas as aprestamos indicando seu nome, se se pode dizer assim, e não nos deteremos a falar sobre cada uma dessas, pois, serão trabalhadas num bloco diferente, as quais são: vocação ao ministério ordenado, à Vida consagrada, ao Matrimônio e à vida laical.

Etapas ou passos da vocação

Entre as etapas ou passos da vocação podemos indicar os seguintes: eleição (Deus chama, convoca), resposta (o vocacionado responde ao chamado, aceita o convite) e por fim temos o envio (missão, diretrizes para a execução do serviço).

  • Eleição (Deus fala): é o momento desencadeador de todo o processo, pelo qual Deus dirige sua voz para uma pessoa específica e gera, no ser humano, um novo nascimento, pois, o chamado se expressa num êxodo, ou seja, sair de si mesmo para se dirigir ao outro, num serviço gratuito e comunitário, pois o “amor repugna a solidão” (RUSSOLILLO. J. XL, 336; cf. PEREIRA, S. p. 12). Portanto, Deus é a fonte de nossa vocação humana e garantia de nossa individualidade (cf. PIKAZA, X. pp. 24, 25, 27, 52, 154 e 187.).

  • Resposta (Eis-me aqui): o vocacionado escuta a voz de Deus e a obedece, ou seja converte-a em princípio de seu novo caminhar sobre a terra (cf. PIKAZA, X. p. 46.). Temos que reconhecer que a resposta não é de imediato, pois todos os exemplos de vocação que encontramos na Sagrada Escritura sempre apresentam um pretexto para rejeitar a missão confiada a eles (cf. Ex 3,11; Is 6,5; Jr 1,7).

  • Envio (Ide): Deus nos envia para o futuro de nossa própria realidade aparecendo como promessa de existência, momento no qual a vocação finalmente se converte em caminho de missão: execução da tarefa recebida (cf Ex 3,10; Is 6,9; Jr 1,10). A missão não é obra apenas do vocacionado, pois, Deus não abandona ao seu servo, Ele caminha com o vocacionado (cf. Ex 3,12; Jr 1,8).

Dimensões da vocação

A vocação pode ser enxergada a partir de duas dimensões: universal, eclesial.

  • Universal: por graça de Deus, e apoiando-se nos pobres deste mundo – Cristo –, quis oferecer o Reino de Deus a todos os seres humanos: cf. Ef 1,3-10. Sem esta descoberta da voz de Deus em Cristo não se pode falar de vocação cristã (Cf. PIKAZA, X. 2015, pp. 224, 232 e 235).

  • Eclesial: a Igreja chama, oferecendo a cada um dos fieis sua tarefa. Ela não é a meta, é o meio principal que os próprios discípulos de Cristo acolheram e forjaram para seguir colocando-se com Cristo a serviço do Reino. Esta dimensão deve ser compreendida como: a Igreja que vive em plenitude a vocação humana: Deus chama em Cristo; transmite sua vocação em forma missionária: ela convoca de maneira geral, abrindo um lugar onde cada um se descobre interpelado; alguém se sente chamado e oferece à Igreja sua própria pessoa para realizar um serviço especial: existe a entrega pessoal e o encargo da Igreja (Cf. PIKAZA, X. pp. 226-232).

Conclusão

A maneira de conclusão gostaria parafrasear um parágrafo da obra de PEREIRA, S. que sintetiza muito bem o nosso trabalho: escrever sobre vocação é tudo isso: uma mistura de legado, e stricto e em latu sensu, e de vocação pessoal, comunitária e universal, de necessidade e de anseio; de missão e de identidade (cf. p. 17).

Pe. Luis Felipe Lañón Angamarca, SDV

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Apresentação
Tema Vocação
Dimensão Humana da Vocação
Dimensão Cristã da Vocação
Vocação a Santidade

As dimensões
da Vocação

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