Dom Clemente Isnard, OSB, bachareal em ciências jurídicas e sociais, foi nomeado o primeiro Bispo de Nova Friburgo, Rj. Tomou parte do Concílio Ecumênico Vaticano II, foi presidente da Comissão de Liturgia da CNBB, vice-presidente da CNBB e do CELAM. Em 1964, foi nomeado, pelo o papa Paulo VI, membro do Conselho para execução da Constituição de Liturgia e depois da Congregação para o Culto Divino. Renunciou ao episcopado quando atingiu o limite de idade, mas continuou trabalhando, exercendo sua vocação e testemunho na Igreja.
Coordenação do site: Qual o cenário de Igreja que vigorava na época da conferência de Medellín ?
Dom Clemente: Há 40 anos se realizou em Medellín na Colômbia uma conferência geral do Episcopado Latino-Americano. Essa conferência apesar de ter o título de geral, não compreendia todos os bispos da América Latina, mas só os bispos eleitos pelas conferências episcopais.
A razão dessa conferência tinha sido a reunião do Concílio Ecumênico Vaticano II de 1962 a 1965. Medellín visava aplicar o Concílio na América Latina e era subsidiária do mesmo.
No Vaticano II, o 22º Concílio Ecumênico, isto é geral da Igreja Católica, o Episcopado Latino Americano e Caribenho começou a adquirir personalidade por causa do grande número de Bispos presentes e pela natureza dos assuntos tratados.
Coordenação do site: A Igreja buscava ser presença mais intensa e renovada na América Latina a partir de Medellín? Ela Conseguiu este feito? Porque?
Dom Clemente: Medellín, graças aos bispos e peritos que tomaram parte na Conferência, tornou-se conhecido pelo conteúdo da sua mensagem, fiel ao concílio, desenvolvendo as conseqüências do mesmo. Medellín expressou o pensamento da Igreja Progressista e, por isso, não foi bem visto pelos conservadores, que foram derrotados no Concílio e tentaram voltar atrás. As conclusões de Medellín não foram censuradas pela Cúria Romana, a redação foi públicada na integra, diferentemente das conferências de Puebla, Santo Domingo e Aparecida.
Coordenação do site: Medellín buscava uma renovação na vida pastoral. O que aconteceu de renovação e o que ainda precisamos renovar?
Dom Clemente: Medellín tratou, sobre tudo da pastoral da Igreja. Muita coisa foi pensada, mas nem tudo está sendo realizado. O papel do conselho pastoral, que deveria existir em todas as dioceses com a presença de padres, leigos e religiosos, não está acontecendo em todas as partes; é uma pena! Assim também outros pontos tratados nesta conferência não entraram na prática da pastoral da Igreja.
Coordenação do site: D. Clemente, o Senhor é uma referência para liturgia no Brasil. Quais os avanços que a Conferência de Medellín trouxe para nossa liturgia?
Dom Clemente: No concílio Vaticano II a liturgia foi totalmente renovada. No Brasil, se fez em todos os lugares àquilo que o Concílio determinou. Além da oposição da diocese de Campos, liderada pelo bispo na época, inúmeros lugares se atreveram a não praticar, por exemplo: a comunhão dada em duas espécies (corpo e sangue de Cristo), o altar provisório na frente do altar antigo, os paramentos, e, sobretudo não possibilitando a participação do povo (missas em Latim).
Coordenação do site: Qual o enfoque dado a Pastoral Vocacional nesta conferência?
Dom Clemente: Medellín não tratou especificamente da pastoral vocacional, mas se refere a ela nos capítulos que fala dos sacerdotes e formação do clero, trata-se de capítulos preciosos. Neste último, trata de uma reforma nos seminários, pede uma formação mais personalizada a base de equipes formativas e pequenas comunidades. Destaca ainda a participação nas universidades católicas e estatais.
Coordenação do site: Medellín quando fala do clero, demonstra uma má distribuição na Igreja, ainda hoje percebemos este problema. Porque a Igreja não avançou nesta questão?
Dom Clemente: Embora não tratando especificamente da Pastoral Vocacional, Medellín se preocupou com uma melhor distribuição do clero. Neste ponto Medellín produziu muitos frutos em toda América Latina, inclusive no Brasil. Fez com que as dioceses ricas de clero partilhassem com a Amazônia e outras regiões deficitárias. Também a Europa e a América do Norte, embora não estando dentro da área da conferência, organizaram movimentos de auxílio sacerdotal ao Terceiro Mundo. E isso se deve as promulgações de Medellín e a impulsos de Roma.
Coordenação do site: Percebemos que em Medellín e em outros documentos da Igreja, um grande desejo de fazer com que os jovens atuem na comunidade cristã. Porque a Igreja não conseguiu avançar nesta área?
Dom Clemente: Os jovens são uma grande preocupação da Igreja. Não que a Igreja deseja tratar os jovens como crianças ou menores de idade, mas porque é a geração presente e futura que vai orientar a opinião pública. Jesus ao escolher os seus Apóstolos incluiu entre eles um jovem que tinha certamente menos de vinte anos, João.
Infelizmente nem todos os dirigentes da Igreja tem confiança nos jovens. Preferem gente madura e responsável. Mas o ardor missionário do jovem faz falta nos movimentos da Igreja, por isso Medellín mandou aproveitar os jovens para o apostolado. Há um setor de apostolado que cabe ao jovem e não pode lhe ser tirado, a Pastoral da Juventude (PJ).
Eu mim lembro do cardeal Dom Sebastião Leme que na hera de trinta convidava jovens universitários para almoçar com ele em sua casa em Itaipava, era um bispo amigo dos jovens. Nós pastores precisamos acreditar mais na força e na capacidade da juventude, precisamos ser amigos dos jovens.
Coordenação do site: Dom Clemente, o senhor publicou um livro com o tema: “Reflexão de um bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais”. Que colaboração esse livro pode trazer para a nossa Igreja?
Dom Clemente: O Concilio Vaticano II operou uma verdadeira reforma na Igreja. Mas não fez tudo! Alguns pontos necessitam de uma reforma, pois não foram contemplados no Concilio. Por exemplo: participação do povo na nomeação dos bispos; bispos auxiliares e bispos eméritos; possibilidade de fazer as mulheres participarem do sacerdócio ministerial e possibilidade do casamento para os padres diocesanos. Esses são os temas que trabalho no meu livro.
Coordenação do site: Deixe sua mensagem final para os nossos leitores.
Dom Clemente: Os apelos dos papas e dos bispos para que se apresentem candidatos para receber o sacramento da Ordem, especialmente no grau de presbítero, tem se multiplicado na Igreja. É uma constatação de que há falta de padres. Por isso é preciso que os leigos conscientes de sua vocação e missão na Igreja unam sua voz à voz da hierarquia para conscientizar todas as pessoas, e de modo particular os jovens, de que são necessários para o bem da Igreja.


